Tratamento endovascular para estenose sintomática da artéria intracraniana

Tratamento endovascular para estenose sintomática da artéria intracraniana

Nas últimas duas décadas, avanços significativos foram alcançados no tratamento endovascular da estenose aterosclerótica sintomática da artéria intracraniana (sICAS). Este estudo revisa criteriosamente os critérios de seleção de pacientes, modalidades avançadas de imagem para caracterização das lesões, abordagens terapêuticas endovasculares em evolução, inovação dos dispositivos neurointervencionistas de próxima geração, além das recomendações baseadas em evidências presentes em diretrizes clínicas e consensos de especialistas para o tratamento da sICAS.

Introdução

O acidente vascular cerebral isquêmico decorrente de estenose aterosclerótica intracraniana continua a ser um grande problema de saúde pública, especialmente em populações asiáticas, onde responde por até 50% dos casos de AVC isquêmico. A sICAS caracteriza-se por eventos isquêmicos recentes (ataque isquêmico transitório ou AVC isquêmico) secundários à estenose hemodinamicamente significativa (70% a 99% de estreitamento luminal) em artérias cerebrais intracranianas principais (ex.: artéria cerebral média, artéria carótida interna intracraniana, artéria vertebral intracraniana ou artéria basilar). Estes pacientes apresentam taxa anual de recorrência de AVC de aproximadamente 20% mesmo com o melhor tratamento médico disponível.

O tratamento médico otimizado permanece a base terapêutica da sICAS. Embora haja avanços em materiais endovasculares, técnicas e experiência dos operadores, grandes ensaios clínicos randomizados (RCTs) não demonstraram benefício claro do tratamento endovascular comparado à terapia medicamentosa isolada. Dispositivos de nova geração podem reduzir taxas de reestenose e complicações periprocedimento, porém riscos como AVCs em ramos perfurantes e incertezas nos resultados a longo prazo persistem. Para pacientes selecionados, o tratamento endovascular pode ter valor, mas indicações, momento ideal e eficácia a longo prazo ainda demandam validação rigorosa.

Critérios de pesquisa e seleção

Foi realizada revisão manual abrangente nas bases PubMed e Google Scholar entre janeiro de 2000 e maio de 2025, incluindo termos relacionados à estenose intracraniana sintomática, modalidades terapêuticas endovasculares, gestão médica otimizada, novas tecnologias e ensaios clínicos randomizados. Foram priorizados RCTs, grandes registros prospectivos e revisões sistemáticas recentes, excluindo estudos sobre estenose assintomática, séries pequenas (<10 pacientes) e publicações não inglesas.

Ensaios clínicos randomizados

Os ensaios SAMMPRIS e VISSIT foram decisivos, porém interrompidos precocemente devido a taxas elevadas de complicações no grupo do tratamento endovascular. Problemas com seleção inadequada dos pacientes, operadores com experiência variada e limitações técnicas dos dispositivos contribuíram para os resultados negativos. O estudo CASSISS trouxe avanços metodológicos estabelecendo critérios rigorosos de seleção e capacitação dos operadores, melhorando a segurança (5,1% de AVC ou morte em 30 dias) mas ainda sem evidência de superioridade clínica em relação à terapia médica isolada, mesmo em seguimento de até 7 anos. Uma análise combinada desses estudos sugere potencial benefício em estenoses maiores que 85%.

Além disso, o ensaio NOVA avaliou stents de eluição medicamentosa e é discutido como tecnologia promissora no cenário do tratamento endovascular da sICAS.

Estudos não randomizados

Registros de grande porte como WEAVE/WOVEN e AIR-CHINA demonstraram taxas muito menores de eventos periprocedimento (2,6% e 4,3%, respectivamente), refletindo seleção criteriosa dos pacientes, maior experiência dos operadores e evolução tecnológica, com dispositivos autoexpansíveis mais flexíveis. Estes dados reforçam que, sob condições rigorosas, o tratamento endovascular pode ser realizado com segurança aceitável.

Estratégias terapêuticas

Melhor manejo médico

A gestão médica otimizada (BMM) é fundamental para prevenção de recorrência em sICAS, incluindo terapia antiplaquetária (dupla no início, seguida de monoterapia), controle rigoroso de lipídios e pressão arterial, além de modificação de fatores de risco. Monitoramento individualizado da resposta antiplaquetária e avaliação genética CYP2C19 são recomendados para ajustar terapias.

Seleção de pacientes para tratamento endovascular

Inclui avaliação clínica e estudos avançados de imagem. Critérios clínicos usualmente adotados: idade entre 18-80 anos, estenose entre 70-99%, pelo menos duas recorrências isquêmicas apesar da terapia medicamentosa, tempo mínimo de 2 semanas desde o último AVC, falha do tratamento médico, e escore de Rankin modificado ≤ 2.

Imagens avançadas incluem angiotomografia e perfusão para identificar estenoses e avaliar reperfusão cerebral; ressonância magnética de alta resolução para caracterizar placas e excluir outras lesões; tomografia de coerência óptica intravascular, para avaliar partes de alto risco; e medição da reserva fracionária de fluxo (FFR) para avaliação hemodinâmica.

Modalidades de tratamento endovascular

Compreende angioplastia com balão, stents autoexpansíveis, balão-expansíveis, balões e stents com medicamentos antiproliferativos. A angioplastia com balão, demonstrada no ensaio BASIS, apresentou menores complicações periprocedimento e redução significativa de eventos isquêmicos tardios comparada a terapia médica isolada, sendo a única evidência RCT favorável ao tratamento endovascular sem implante permanente.

Stents balão-expansíveis oferecem alta força radial, porém são rígidos e com riscos elevados em vasos intracranianos tortuosos e com ramos perfurantes, limitando seu uso a casos criteriosamente selecionados. Stents autoexpansíveis, como o Wingspan, permitem melhor navegabilidade though com desafios em taxa de reestenose e complicações.

Variedades off-label como Enterprise, Neuroform EZ e Atlas, LVIS e Solitaire AB oferecem design e propriedades diversas, buscando equilibrar flexibilidade, força radial e segurança em áreas complexas. Estudos meta-analíticos apontam melhores resultados e menor reestenose com essas opções comparadas ao Wingspan.

Balões e stents com eluição medicamentosa (DCB e DES) mostraram reduzidas taxas de reestenose em RCTs como AcoArt sICAS e NOVA, com trocas entre menor risco periprocedimento (DCB) e benefício robusto em prevenção tardia (DES). Entretanto, desafios clínicos persistem incluindo risco de infarto em ramos perfurantes e dados limitados em seguimento prolongado.

Abordagens complementares

A condicionamento isquêmico remoto (RIC) utiliza ciclos de isquemia e reperfusão em membros para ativar mecanismos neuroprotetores, mostrando benefícios como terapia adjunta no estudo RICA. Abordagens cirúrgicas, como bypass EC-IC, mostram evidência limitada, sendo indicadas para casos específicos, com tratamento médico e endovascular preferidos para estenoses.

Novos materiais e tecnologias

Dispositivos com eluição de sirolimus demonstram potencial maior antiproliferativo e menor neurotoxicidade. Novos cateteres e técnicas, incluindo sistemas assistidos por robótica, prometem segurança e precisão aprimoradas, embora com limitações práticas e custo elevado.

Gerenciamento periprocedimento

Protocolos rigorosos de antitrombóticos, anticoagulação e controle tensional são cruciais para sucesso técnico e prevenção de complicações como hiperperfusão, trombose aguda de stent, embolização distal e AVC em ramos perfurantes (efeito snowplough) — este último exigindo seleção criteriosa de paciente e técnica refinada, especialmente para evitar casos com infarto isolado em perfuradoras.

Conclusões e perspectivas futuras

O manejo da sICAS está em transformação, evoluindo do foco mecânico para uma compreensão biológica integrada do risco individual e da vulnerabilidade da placa. A seleção de pacientes passa a ser dirigida por avaliação multimodal, incluindo ressonância de alta resolução e FFR, visando identificar pacientes de alto risco biológico que possam se beneficiar do tratamento endovascular.

Ensaios futuros devem restringir a inclusão a subgrupos selecionados com fenotipagem precisa e endpoints que considerem não só recorrência, mas desfechos compostos incluindo funcionalidade, mortalidade vascular e cognição, com desafio ético adicional diante do avanço do manejo médico demarcado por agentes potentes como inibidores PCSK9.

Simultaneamente, agendas de pesquisa translacional e clínica devem avançar para biomarcadores não invasivos, avaliação rigorosa de dispositivos de nova geração e otimização da terapia médica, buscando integração personalizada e eficaz para o paciente certo no momento ideal.

Fonte:

https://svn.bmj.com/content/early/2026/04/15/svn-2025-004419 – Endovascular treatment for symptomatic intracranial artery stenosis: current strategies and future challenges | Stroke and Vascular Neurology

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