A decisão entrou em vigor em primeiro de janeiro de 2024 e nasceu de evidência científica que vinha sendo acumulada em duas frentes. O ortopedista contemporâneo precisa olhar para esse movimento como sinal de virada de paradigma, não como nota de coluna esportiva.
A Agência Mundial Antidoping incluiu o tramadol na classe S7 Narcóticos da Lista de Substâncias Proibidas a partir de primeiro de janeiro de 2024. A decisão foi formalizada em setembro de 2022, com mais de um ano de carência para adaptação de equipes médicas e atletas. À primeira vista, parece tema restrito ao esporte de alto rendimento. Não é. O movimento da WADA consolida uma reposição clínica que já vinha sendo construída em literatura indexada e que reposiciona uma molécula até então tratada com a etiqueta amigável de opioide leve e seguro. Na prática do consultório ortopédico brasileiro, o eco é tão alto quanto na pista de corrida.
A evidência ergogênica que selou a decisão
A WADA fundamentou a decisão, entre outros pilares, em estudo que ela própria financiou. HOLGADO e colaboradores publicaram em 2023, no Journal of Applied Physiology, um ensaio randomizado, duplo cego, em desenho cruzado, com vinte e cinco ciclistas altamente treinados. Após ingestão de cem miligramas de tramadol ou placebo, os participantes completaram um time trial competitivo de vinte e cinco milhas. A diferença foi consistente. Cinquenta segundos mais rápidos no grupo tramadol, com nove watts de potência média adicional e redução estatisticamente significativa da percepção de esforço. Em corridas de elite, ganho de 1,3 por cento decide pódio. A WADA concluiu que o tramadol preenche dois dos três critérios obrigatórios para entrada na Lista. Potencial de melhora artificial de desempenho e risco concreto à saúde do atleta.
O sinal clínico que precedeu a decisão
Antes mesmo do banimento esportivo, XIE e colaboradores publicaram no JAMA, em outubro de 2021, o que talvez seja o sinal mais alto já emitido sobre o tramadol em ambiente clínico ambulatorial. Corte populacional retrospectiva da Catalunha, com pareamento por escore de propensão, 368.960 pacientes ao todo, 184.480 pares perfeitos. A nova prescrição de tramadol, comparada com a de codeína, associou-se a três desfechos negativos relevantes em um ano de seguimento.
| Desfecho clínico | Tramadol | Codeína | Hazard ratio |
| Mortalidade por todas as causas, por 1.000 pessoas ano | 13,00 | 5,61 | 2,31 |
| Eventos cardiovasculares, por 1.000 pessoas ano | 10,03
|
8,67 | 1,15 |
| Fraturas, por 1.000 pessoas ano | 12,26
|
8,13
|
1,50 |
O risco de mortalidade foi ainda mais alto em adultos jovens, com hazard ratio de 3,14. O risco cardiovascular foi maior em mulheres, com hazard ratio de 1,32. Os números falam por si.
O que o médico precisa ter em consideração ao prescrever
Os dois corpos de evidência convergem para a mesma conclusão. O perfil farmacológico do tramadol é mais complexo do que a categoria opióide leve sugere. A molécula combina atividade serotoninérgica, atividade noradrenérgica e ligação em receptores mu, criando interações imprevisíveis com antidepressivos modernos. Soma-se a isso a sedação, a tontura e a deriva cognitiva que aumentam risco de queda. Para o paciente idoso em pós operatório, para o adulto diabético em uso de inibidor seletivo de recaptação de serotonina e para o paciente que retorna ao esporte amador no fim de semana, o tramadol passou a exigir uma justificativa clínica que antes ele não exigia.
O que recolocar no lugar
A literatura recoloca o binômio paracetamol mais codeína na primeira linha de dor moderada a intensa. Mecanismos complementares sustentam essa escolha. Paracetamol modula centralmente a síntese de prostaglandinas. Codeína se liga a receptores mu como opioide fraco. Revisões sistemáticas indexadas em PubMed demonstram que a combinação supera o paracetamol isolado em controle de dor pós-operatória, com perfil de eventos adversos previsíveis e décadas de farmacovigilância. No Brasil, o Tylex é a referência consolidada nessa associação, com apresentações de 7,5 e 30 miligramas de codeína que permitem titulação fina conforme a sensibilidade do paciente. A codeína também tem atividade serotoninérgica desprezível, o que reduz risco de síndrome serotoninérgica em pacientes em uso concomitante de antidepressivos.
A virada que separa quem pratica medicina baseada em evidência
O banimento do tramadol pela WADA tem importância maior que a esportiva. Ele carimba, em instância internacional, uma virada de paradigma que vinha sendo construída há anos em estudos populacionais. O ortopedista contemporâneo não pode mais prescrever tramadol no piloto automático. A escolha do analgésico volta a ocupar o centro do raciocínio clínico, não a periferia da prescrição. Quem entender essa virada antes da maioria estará oferecendo ao paciente desfechos mensuráveis melhores em mortalidade, em fratura e em recuperação funcional.
Referências em formato ABNT
HOLGADO, D. et al. Tramadol is a performance enhancing drug in highly trained cyclists: a randomized controlled trial. Journal of Applied Physiology, v. 135, n. 4, p. 730 a 740, 2023.
WORLD ANTI DOPING AGENCY. The 2024 Prohibited List. International Standard. Montreal, em vigor a partir de 1 de janeiro de 2024. Disponível em: wada ama.org. Acesso em: maio de 2026.
XIE, J. et al. Association of tramadol vs codeine prescription dispensation with mortality and other adverse clinical outcomes. JAMA, v. 326, n. 15, p. 1504 a 1515, 2021.
DE CRAEN, A. J. M. et al. Analgesic efficacy and safety of paracetamol codeine combinations versus paracetamol alone: a systematic review. British Medical Journal, v. 313, n. 7053, p. 321 a 325, 1996.
ZAJACOVA, M.; VRBA, J.; ROHACOVA, K. Resolving issues about efficacy and safety of low dose codeine in combination analgesic drugs: a systematic review. Pain and Therapy, v. 9, n. 1, p. 25 a 50, 2020.
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