Conceito de Burnout: Questões Atuais da Pesquisa e a Contribuição da Clínica

Tipo de Artigo: ENSAIO

Autora:

  • Isabela Vieira (Médica psiquiatra; Mestre em Psiquiatria pelo Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)

Palavras-chave: burnout – conceito; estresse mental; psicologia organizacional; fadiga nervosa; estresse ocupacional.


RESUMO

Considerando o crescente interesse científico no fenômeno burnout, apresentamos uma amostra da diversidade teórica que forma o campo de pesquisa neste tema a partir de algumas questões atuais de discussão sobre o seu conceito. Discutimos aparentes limitações da abordagem empírica à compreensão da natureza conceitual do burnout, apontando uma possível contribuição da clínica (dentro do campo da Psiquiatria) a este debate.


Introdução

O termo burnout significa “queima” ou “combustão total“. Faz parte do vocabulário coloquial e costuma ser empregado para denotar um estado de esgotamento completo da energia individual associado a uma intensa frustração com o trabalho (MASLACH; SCHAUFELI; LEITER, 2001).

Este fenômeno passou a ser objeto de estudo científico na década de 1970 com a primeira descrição clínica feita por Freudenberger (1974), despertando interesse especialmente no campo da Saúde Ocupacional. Em 2009, foram indexados, na base ISI Web of Science, 208 artigos contendo burnout no título.

O conhecimento derivado da pesquisa empírica pode ser resumido:

  • Definição: Em geral, é definido como uma reação negativa ao estresse crônico no trabalho (SHIROM, 2003).

  • Manifestações: Fadiga persistente, falta de energia, adoção de condutas de distanciamento afetivo, insensibilidade, indiferença ou irritabilidade relacionadas ao trabalho, além de sentimentos de ineficiência e baixa realização pessoal.

  • Cronicidade: Condição crônica determinada principalmente por fatores da organização do trabalho (sobrecarga, falta de autonomia e de suporte social).

  • Consequências Negativas:

    • No nível socioeconômico: absenteísmo, queda de produtividade e aposentadoria precoce.

    • Para a saúde física: aumento do risco cardiovascular, desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenais, diabetes tipo 2 e distúrbios musculoesqueléticos.

    • Para a saúde mental: associação com ansiedade, depressão e abuso de álcool.

Tal conjunto de informações provém majoritariamente de estudos transversais, com prevalência variando de 10% a mais de 30% na população estudada, e entre 5% e 7% na população geral ativa. A maior parte dos trabalhos utiliza a definição de Maslach (tríade Exaustão, Despersonalização/Cinismo e baixa Realização Pessoal/Ineficácia). Há uma tendência de crescimento do número de estudos longitudinais, especialmente a partir do ano 2000.

No Brasil, apesar do interesse científico crescente, ainda há poucas publicações, a maior parte delas voltadas para a detecção de taxas de prevalência.

O conhecimento produzido, embora pareça homogêneo devido a uma definição dominante, revela um debate científico intenso que gera perspectivas teóricas variadas. O presente artigo pretende apresentar um pouco desta diversidade teórica, enfocando aspectos da discussão atual sobre o conceito de burnout, e pensando em uma possível contribuição da clínica à resolução destes impasses.

Um Conceito em Construção

O estudo sistemático do burnout inaugura-se em 1974 a partir da descrição clínica feita pelo psicanalista norte-americano Herbert Freudenberger, de um quadro de esgotamento físico e mental com intensa irritabilidade relacionado a condições adversas de trabalho de profissionais de saúde. Para ele, burnout é um “incêndio interno“, um “esgotamento dos recursos físicos e mentais”; é “esgotar-se para atingir uma meta irrealizável” imposta pelo próprio indivíduo ou pela sociedade.

Paralelamente, Christina Maslach (e colaboradores) define-o como uma “síndrome psicológica em reação a estressores interpessoais crônicos no trabalho”, identificando nele três componentes principais:

  • Exaustão emocional: cansaço extremo e sensação de não ter energia.

  • Despersonalização: adoção de atitude de insensibilidade ou hostilidade em relação às pessoas que devem receber o serviço/cuidado.

  • Perda da realização pessoal: sentimentos de incompetência e de frustração pessoal e profissional.

A criação do instrumento de aferição (Maslach Burnout Inventory – MBI) viabiliza o estudo epidemiológico e o conceito de Maslach torna-se dominante. Devido à aplicação em diversos grupos profissionais além dos human services, o instrumento foi adaptado (MBI-GS – General Survey), renomeando as dimensões para: Exaustão, Cinismo/Ceticismo (refletindo indiferença ao trabalho) e Eficácia Pessoal (abrangendo aspectos sociais e não sociais da realização profissional).

Apesar das adaptações, alguns pesquisadores (SHIROM, 2003; KRISTENSEN et al., 2005) detectam falhas na concepção de Maslach, propondo novas definições:

  • Pines e Aronson: definiram burnout como “um estado de exaustão física, emocional e mental causado por um envolvimento de longo prazo em situações de alta demanda“. Não restringem o conceito ao campo ocupacional.

  • Shirom e Melamed: Burnout é um estado afetivo singular caracterizado pela sensação de perda de energia física, mental e cognitiva, baseada na teoria da Conservação de Recursos (COR). Suas três dimensões são Fadiga Física, Exaustão Emocional e Desgaste Cognitivo.

  • Demerouti e colegas: O burnout é composto de apenas duas dimensões: Exaustão e Desengajamento (análoga à Despersonalização, vista como reação de rejeição ao trabalho).

  • Kristensen e colegas: O aspecto central é a fadiga/exaustão e a sua atribuição a determinada esfera da vida (pessoal, ligada ao trabalho ou ligada ao cliente), não o considerando um fenômeno exclusivamente relacionado à atividade profissional.

Vê-se, portanto, que o conceito de burnout está em franco processo de revisão crítica, em construção.

Limites da Pesquisa e a Contribuição da Clínica: A Questão Subjetiva

Em uma publicação dedicada ao burnout, conclui-se pela necessidade urgente de estabelecer de maneira mais precisa o seu conceito (COX; TISSERAND; TARIS, 2005). Duas questões importantes no debate científico são:

  1. Burnout se resume à dimensão Exaustão?

  2. Burnout se dá especificamente no contexto do trabalho?

A primeira questão refere-se à discussão sobre a uni ou a multidimensionalidade. Baseia-se no consenso em se considerar a exaustão como o núcleo do fenômeno. O argumento para restringir o conceito a esta dimensão é que cada dimensão se associa a diferentes antecedentes e consequências. Há quem defenda classificar como burnout apenas a presença conjunta das dimensões Exaustão e Despersonalização/Cinismo (DE/C). Alguns autores entendem que a DE, enquanto estratégia de coping (mecanismo de defesa), deveria ser excluída do conceito (KRISTENSEN et al., 2005). Outros argumentam que a DE/C deveria permanecer integrada, sendo a sua dimensão mais específica, pois a diferencia de um quadro de fadiga prolongada (SONNENTAG, 2005).

A segunda questão – se o burnout é estritamente relacionado ao trabalho – justifica-se porque, sendo uma resposta ao estresse crônico, o contexto não importaria. Contrários a esta perspectiva, Schaufeli e Taris (2005) apontam a importância de manter o conceito associado a atividades análogas ao trabalho (estruturadas, coercitivas e dirigidas a objetivos específicos).

Na experiência clínica, o que mais chama a atenção é o relato recorrente de sentimentos negativos como desencanto e profunda desilusão relacionados ao trabalho, chegando à adoção de condutas de evitação ou aversão total. Esta apresentação, compatível com a característica de Despersonalização/Cinismo, é o que diferencia clinicamente os “portadores de burnout” dos pacientes deprimidos em geral, e não permite ignorá-la.

A Despersonalização/Cinismo pode ser considerada uma dimensão mais propriamente “subjetiva” do burnout, na medida em que representa uma atitude negativa baseada em um sentimento de desencanto dirigido especificamente ao trabalho. Isso levanta a questão: “Seria o questionamento científico a respeito da natureza da Despersonalização o reflexo de uma dificuldade (uma limitação) do método empírico em avaliar características subjetivas?”

Voltar a atenção à clínica poderia ajudar a preencher esta lacuna. Atualmente, a maior parte dos estudos sobre seu tratamento prioriza estratégias de “manejo de estresse”, cujo principal resultado é a redução dos níveis de exaustão, mas as taxas de retorno ao trabalho a longo prazo permanecem quase que inalteradas (GROSSI; SANTELL, 2009).

Conclusão

Procuramos dar uma ideia da diversidade teórica que forma o campo de pesquisa em burnout. O debate a respeito do conceito traduz o desejo de se compreender a sua “verdadeira natureza”, empreendida por meio da investigação científica baseada no método empírico. Curiosamente, as questões que emergem (natureza da Exaustão, pertinência da Despersonalização/Cinismo e ligação com o trabalho) são justamente aquelas nas quais a subjetividade está mais presente, o que pode refletir uma limitação do método empírico.

O modelo científico preferencialmente adotado pela Psiquiatria (etiologia biológica das doenças) dificulta a classificação do burnout como “doença real”, já que não é possível evidenciar de forma positiva suas bases biológicas.

Porém, mesmo que o burnout não possa ser considerado uma doença sob o modelo científico vigente, isto em nada diminui a importância de estudá-lo, nem do ponto de vista social, nem do individual. A compreensão do fenômeno individual é o que mais interessa, e esta compreensão passa pela consideração dos fatores subjetivos.

É aí que reside a especificidade da Psiquiatria enquanto campo de saber que inclui a experiência subjetiva do adoecimento como objeto de investigação. Através do estudo do burnout, a Psiquiatria poderia oferecer uma contribuição singular ao campo da Saúde Mental e Trabalho, ocupando uma posição privilegiada ao permitir a integração das perspectivas física/fisiológica, psicológica e social na compreensão dos fenômenos humanos.

Link do artigo original:
https://www.scielo.br/j/rbso/a/KTtx79ktPdtVSxwrVrkkNyD/?format=html&lang=pt

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