Pode um “Impulsionador de Caminhada” Ajudar Sobreviventes de AVC a Avançar?
Recuperar a capacidade de caminhar a longo prazo após um acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo um grande desafio. Mesmo pacientes que apresentam progresso significativo durante a reabilitação hospitalar frequentemente enfrentam dificuldades para manter ou melhorar a mobilidade ao retornarem para casa. A fisioterapia comunitária é limitada por disponibilidade, frequência e duração, deixando muitos sobreviventes de AVC com necessidades de reabilitação não atendidas meses ou anos depois do evento. Essa lacuna de reabilitação tem sido reconhecida como uma barreira crítica para a independência funcional a longo prazo, porém soluções práticas e escaláveis ainda são escassas.
Um novo estudo randomizado conduzido por Scrivener e colaboradores propôs um modelo promissor para preencher essa lacuna: um programa intenso e de curta duração chamado “HiWalk”. Este consiste em fornecer um período concentrado de treinamento específico para a caminhada, combinando exercícios de força, equilíbrio e uma abordagem de autogerenciamento baseada no método “Taking Charge after Stroke”.
O estudo multicêntrico, com avaliação cega dos desfechos, incluiu 47 adultos entre 6 meses e 8 anos após o AVC, com velocidade de caminhada entre 0,4 e 1,0 m/s. Os participantes foram randomizados para receber o programa HiWalk além do cuidado usual, ou apenas o cuidado usual. O programa totalizou 43 horas de treinamento distribuídas em três semanas. Os resultados mostraram alta adesão (91%) e quase total seguimento (98%), indicando que é possível aplicar um programa intensivo mesmo em ambiente comunitário.
No entanto, apesar da alta dose de treinamento, não houve diferenças significativas na velocidade de caminhada, o desfecho clínico primário, entre os grupos em 1 e 6 meses. Isso levanta a questão se intervenções intensas de curta duração são suficientes para ganhos funcionais duradouros na fase crônica do AVC. Curiosamente, o grupo HiWalk apresentou melhora na autoconfiança, sugerindo um impacto positivo no engajamento e na percepção das capacidades do paciente.
Além disso, uma análise exploratória indicou que pacientes sem reabilitação contínua tiveram maior benefício, o que destaca o potencial valor do programa para quem tem acesso limitado a terapias. Apesar das limitações como dificuldade em manter o avaliador cego e o grupo controle motivado para participar após o estudo, os achados fornecem uma base para futuros programas comunitários, oportunizando a extensão da recuperação para além do ambiente hospitalar.
Em resumo, HiWalk demonstrou ser viável, bem aceito e promissor para restaurar performance física e confiança em sobreviventes de AVC, abrindo caminho para modelos escaláveis de reabilitação comunitária que auxiliem na continuidade da recuperação.
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